Diversas

sábado, 28 de maio de 2011

Inventaria cores se fosse pintor



Se eu fosse pintor,
Faria dos pincéis, instrumentos mágicos
E inventaria cores inexistentes;
Criaria as cores do amor exaltado
E jamais usaria os tons da tristeza;
Aboliria todas as cores negativas
E faria da vida, a maior e mais bela tela,
Onde o azul do céu, fosse a alma
O vermelho do sol refletido no mar,
O sangue quente das veias!
O luar…
Sim ao luar nos seus tons suaves,
Dar-lhe-ia o dom da serenidade;
Ao brilho cintilante das estrelas,
Poria na minha tela como alertas,
E se algo não fosse bem, na paz
As estrelas despertariam
E brilhariam com mais força!
Daria às flores, as cores mais raras,
Que representariam a bondade,
Porque esta também é rara;
Para representar a humildade,
Ainda não sei que cor daria…
Teria, certamente de inventar uma;
Tenho dificuldade em encontrá-la,
Será que a humildade não existe?
Ou talvez porque eu não sou um pintor!

José Carlos Moutinho
28.5.11

E vi pobreza!



Nasci num dia ensolarado de primavera,
Livre, como todos os recém-nascidos,
Num país de liberdade algemada,
De sois melancólicos, opacos
E de luas escondidas pela penumbra;
De palavras proibidas
E vozes caladas;
De pessoas isoladas,
Porque mais que duas,
Eram um perigo!
E vi pobreza, no país onde nasci!

Vivi e cresci, rodeado de cor e luz,
De cheiros fortes de terra molhada,
De sons de batuques
E reco-recos encantados,
Fascinado pelo som melodioso do kissanje,
Que chorava o seu amor perdido!
Cresci, correndo por caminhos,
De chão vermelho e poeirento
Vivi e cresci,
Junto de gente com pele de outra cor,
Gente como eu, que riam e cantavam
Em liberdade e felizes,
Porque o sol brilhava, com todo o esplendor
E a lua embalava nas noites escuras,
Os acordes das batucadas.
E vi pobreza, no país onde cresci!

Também vivi em outro país,
Irmão daquele onde eu cresci,
Com sol e lua fascinantes,
Afastados no azul de um oceano,
Atlântico de seu nome,
Com gente que ria, que cantava
E enganavam os estômagos,
Com os sons do samba;
E que em liberdade,
Faziam da caixa de fósforos, tamborim
E vi pobreza nesse país, onde vivi!

José Carlos Moutinho



segunda-feira, 23 de maio de 2011

A Natureza




Abraçam-se as nuvens, lá bem alto
E dançam num ritmo endiabrado
Cantam enquanto se rodopiam
E na sua loucura provocam-se entre si
Num atrito explosivo
Que lhes provoca lágrimas de alegria,
Que caem, por vezes abruptamente
E nos dias ensolarados, como que mágica colorida
Oferece-nos a delicadeza do arco-íris,
Que nos encanta
As lágrimas secam,
O Sol brilha mais forte e resplandecente
E o arco-íris permanece no seu deslumbramento
Como uma miragem
Numa quase circunferência de cor e luz
É natureza no seu esplendor
Que alimenta os nossos olhos com a beleza pura
Depois da evaporação, que se torna em algodão
Após afagos e apertos, carícias e outros mais
Este namoro transforma-se em condensação
E a terra é abençoada pela água da vida
Caída dos céus.

José Carlos Moutinho

domingo, 22 de maio de 2011

Saudade




De repente senti saudade
Do tempo em que não se tinha saudade
Era a época da juventude, da alegria
Vivia-se com vibração a cada dia
Não se pensava no amanhã
A paixão brotava dos poros, como seiva
Contida no suor de verão
Ria-se, por gosto e até sem razão
O amor estava latente em cada esquina
Nos jardins dos nossos encantos
As emoções transbordavam
O sorriso da morena que nos cativava
Ou da loira que se rebolava
Numa insinuação deliciosa de se ver
Havia ilusão, misturada na razão
No prazer e do sentir do coração
Naquele tempo em que não havia saudade
Um beijo valia como uma pérola
Um abraço, como a luz do sol
E a entrega, ai a entrega, era tudo
Era a lua, o sol o Céu o mundo
Era a eternidade e esquecer o resto.

José Carlos Moutinho

sábado, 21 de maio de 2011

Emoção e quimera




Agarro-me às ilusões inventadas
Na ânsia de as tornar reais;
Voo nas imagens dos pensamentos,
Olho o reflexo de mim em ti
E a tua imagem está vazia de mim;
As folhas que caem,
E que me tocam docemente,
Fazem-me sentir-te, ténue, como a luz,
Deste sol cansado de fim de dia!
É irreal e imaginado esse toque teu,
Não estás aqui!
Estiveste por um àpice
E foste-te com a luz do inverno
Célere, como os teus sentimentos;
Tornaste o belo em horrendo,
Foste fria e calculista;
E tu mesma foste vítima,
Da tua incompreensão;
A emoção que dizias sentir
Era na verdade falsa,
Não passava de simples quimera.

José Carlos Moutinho

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sonhando

Tenho dito que destruí todos os poemas, feitos com a idade de 16/20 anos. E é verdade.
Esta noite sonhei que teria alguns poemas daquela época. Procurei, rebusquei, encontrei este, de nome SONHANDO. Foi escrito em 66.




SONHANDO

Do belo e fantástico alvorecer dos meus sonhos
desperto,
e penetro nas mais profundas
e densas trevas,
da crua e tortuosa realidade,
desfazendo
num ápice,
as mais belas e irreais quimeras
de um só momento
de imensa felicidade ;
Momento em que se sonha, despertado,
que se ama e se é amado,
louca e veemente,
em constante adoração...
Momento em que se sente ciúmes
da luz do luar,
que afaga, meigamente
o ente amado...
Das pedras,
que indiferentemente são pisadas,
pelos seus graciosos pés...
Do calor do sol,
que bafeja as suas faces,
dando-lhes um angélico colorido...
Do momento, ainda,
em que se recebe,
a dádiva de um simples
sorriso
que nos transporta,
voluptuosamente
a outro mundo,
diferente,
extra-terreno,
maravilhoso...
irreal ...
Mas eis, que tudo é fictício,
e como se sofre !...
Oh Força invisível e Omnipotente,
que existes para Além da Morte,
fazei com que eu não sucumba
a este amor
sem retribuição,
e que não caia na perversa
desilusão
de uma amarga realidade...


José Carlos Moutinho
20/8/66

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Teimosia



Ainda escuto os sons roucos da minha agonia;
Ecoa em mim as tuas últimas palavras de adeus;
Na minha memória ficou aquela tarde triste,
Embora ensolarada, de um dia de Outono;
Tudo deixou de fazer sentido!
O voo suave das aves, era como ribombar
Na minha mente incrédula;
O que me rodeava,
Era de outro mundo
Estranho, exótico inexistente;
O teu sorriso de despedida,
Foi um esgar em ti de tristeza,
De displicência ou amargura!
Gravou-se-me no subconsciente
Aquele teu acenar, flácido
De braço quase caído, sem força
Querendo chamar-me,
Mas teimavas em querer demonstrar
O que não sentias, nem querias;
Preferiste o navegar no sofrimento
Que te acompanhou por anos
E que me arrastou pelo mesmo mar.

José Carlos Moutinho

A uma grande amiga, Maria José




Navego em águas azuis da alegria,
Em canoa inventada na amizade,
A oscilação das ondas da fraternidade,
Embala-me pelo leme da solidariedade!
O mundo, as pessoas, podem ser belos,
Quando se tem a felicidade,
De encontrar as pessoas certas,
Nos momentos certos;
Eu tive a bênção de ter amigos,
Inventados num mundo virtual,
Que se tornaram irmãos no real;
A confraternização séria e verdadeira
Que encontrei nestes últimos dias,
Fez-me pensar na beleza do ser humano.
Encontrei uma mulher bela de alma
E não só, mas amiga de coração,
Que fez de mim o seu herói de ficção,
Pela poesia que partilhamos;
Mulher morena, de encantos tamanhos,
Olhos com brilho de anjo,
Sorriso que cativa, como luz celeste;
Ser humano raro, iluminado,
De dar mais do que receber.
A ti, minha amiga para toda a vida,
A ti, Maria José com o meu carinho,
Aceita o meu abraço
Do fundo do meu coração
E o meu obrigado eterno!

José Carlos Moutinho